
Foto de Eric Boutilier-Brown
- A casa tem três quartos, além de cozinha, casa de banho e despensa. Um é o quarto de dormir; outro, a sala de jantar; e o terceiro…Não adivinha?...Não, não pode adivinhar…
- Noutras circunstâncias eu diria que era, por exemplo, a biblioteca…
- Noutras circunstâncias. Agora não leio. Vou morrer. Ouça: a casa é assoalhada. As casas são naturalmente assoalhadas não é?
- Claro.
- Sim, mas esse quarto não é assoalhado.
- Mais um espanto para o capataz – disse eu sorrindo.
- E para si também.
- Também para mim. Porque não assoalha esse quarto?
- Durante um ano vou viver naquela montanha, na mata, na terra arenosa diante do mar. Vou entrar e sair da casa e vaguear por esses lugares todos. E então sentirei que não devo sair mais, e ficarei em casa andando de um quarto para o outro.
- No quarto sem soalho, também?
Não respondeu.
- Lembra-se de lhe ter falado no vento marítimo batendo nos pinheiros? E na alta montanha intransitável atrás da casa?
- Lembro-me. Conheço o sítio, já lhe disse.
- O barulho do mar e do vento. A montanha, a ideia da montanha impraticável. E depois a terra arenosa por ali fora. E a solidão. E sentir sobretudo que já não pode haver medo. Fecho as portas da casa, a porta de saída e as portas dos quartos entre si. E fico no quarto sem soalho e deito-me no chão. Ouço o mar e o vento à frente e atrás da montanha solitária e poderosa. Depois encosto a cara à terra profundíssima para escutar o seu húmido sussurro atravessando-a toda e passando por mim. E então poderei morrer.
Excerto de «Os passos em volta» de Herberto Helder